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segunda-feira, 24 de setembro de 2007

A Primavera

Ontem, dia 23 de setembro, começou a Primavera no hemisfério sul. Esta é a estação da renovação de um ciclo, do florescimento e da exuberância da vida. Traz-nos inspiração e otimismo numa explosão de cores.

É uma ocasião oportuna para ler (ou reler) o texto “Primavera”, de Cecília Meireles. Recebi este texto por e-mail de um amigo. E este texto também está reproduzido
neste site e neste outro.

Primavera

A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, “por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida” e efêmera.

(Cecília MEIRELES. Obra em Prosa - Volume 1, Ed. Nova Fronteira: Rio de Janeiro, 1998, pág. 366.)



Que a Primavera traga renovação e otimismo. Que a Paz prevaleça. E que as boas notícias ecoem pelo Universo e encontrem ressonância em todos os seres.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

O milagre do dia 11 de setembro

Nesta data de hoje, 11 de setembro, muito se fala de um trágico acontecimento há 6 anos atrás: os ataques terroristas nos Estados Unidos. Nesta mesma data, há um outro fato triste da história da humanidade: em 11 de setembro de 1973 ocorreu o golpe de estado que encerrou o governo democrático de Salvador Allende no Chile. Além destes dois, muitos outros fatos ocorreram em um 11 de setembro.

Mas, no dia de hoje, gostaria de trazer uma linda história, da qual tomei conhecimento apenas recentemente, e que também ocorreu em um 11 de setembro. Na verdade, trata-se de um evento ocorrido no fatídico dia 11 de setembro de 2001, nas imediações das torres gêmeas em Nova York. Este pequeno conto foi extraído do livro “Small Miracles for the Jewish Heart” de Yitta Halberstam e Judith Leventhal, e encontrei outras traduções neste site e também neste outro (além de ter recebido por e-mail de um amigo).


Em uma pequena sinagoga, não muito distante das duas Torres do World Trade Center, como de costume, um grupo de judeus ortodoxos se encontrou, cedo pela manhã, para oficiar as preces matinais. Normalmente, não é problema reunir um minian (quórum de 10 homens exigido para as orações) e a sinagoga fica lotada de fiéis. Mas, na manhã de 11 de setembro de 2001, houve uma rara escassez de participantes.

Duzentos homens que trabalhavam no World Trade Center estavam, de fato, atrasados para o trabalho naquela manhã por causa da sua participação no serviço de shloshim, em memória de judeus mortos em um acidente. Mas seja lá qual for o motivo, a congregação se viu diante de um problema: o tempo corria e havia somente nove dos dez homens necessários para iniciar a reza de Schacharit. Todos eram profissionais sérios e tinham que estar nos seus escritórios no World Trade Center bem antes das 9h.

"O que faremos", eles se perguntavam, impacientemente, olhando seus relógios e andando de um lado para o outro. "Isto não acontece há anos! Onde está todo mundo? Tenho certeza de que o décimo homem chegará daqui a pouco", ao que outro respondia: "Temos que ter paciência”.

Finalmente, quando estavam todos quase desistindo e se preparando para fazer as preces individuais, ao invés de rezar com um minian, um homem velho que ninguém tinha jamais visto entrou pela porta e, olhando para o grupo, perguntou: "Vocês já daven?" (rezaram, em ídiche).

"Não senhor", um deles gritou, entusiasmado. "Nós o estávamos esperando". "Ótimo", respondeu o velho. "Tenho que dizer o Kadish pelo meu pai e preciso conduzir, eu mesmo, o serviço religioso. Estou tão contente que vocês ainda não tenham começado". Em circunstâncias normais, os homens teriam perguntado ao senhor educadamente qual era o seu nome, de onde vinha, como chegara até o shul, entre outras perguntas. Porém, estavam tão ansiosos para começar, que decidiram passar por cima do protocolo. Prontamente deram-lhe um sidur, esperando que ele fosse o próprio "Papa-Léguas" das rezas.

O velho, no entanto, provou ser exatamente o contrário! Ele parecia ler as páginas do sidur em câmara lenta. Os fiéis o respeitaram, mas definitivamente estavam "in shpilkes" (em ídiche, impacientes) para chegar ao trabalho. "Oi!", alguém disse frustrado, colocando a mão sobre a testa. "Nós realmente estamos atrasados".

Nesse momento, ouviu-se a primeira explosão. Eles correram para fora e viram a fumaça, o caos, os gritos da multidão e algo que se parecia com o apocalipse. Após o choque e horror inicial, eles logo se conscientizaram. Perceberam que haviam sido resgatados das garras da morte. Todos eles trabalhavam nas Torres do World Trade Center, e deveriam estar lá antes das 9h. Se não fosse pelo ancião e pela lentidão de suas preces matinais, muito provavelmente estariam mortos.
Então, todos se viraram para agradecer ao misterioso homem que salvara suas vidas. Eles queriam abraçá-lo, perguntar seu nome e de onde ele teria vindo naquela fatídica manhã. Mas suas perguntas ficaram no ar, sem resposta, pois quando se viraram, o homem tinha partido. Sua identidade será para sempre um mistério.

Esta é a história de um milagre, como tantos outros que ocorrem em nosso dia a dia, e que muitas vezes não nos damos conta. Trata-se do “errado que deu certo”, ou “o mal que vem para o bem”. São as pequenas sincronicidades e as “coincidências” que, se estivermos atentos, nos deixam em estado de graça para com a vida.

Que a Paz prevaleça. E que as boas notícias ecoem pelo Universo e encontrem ressonância em todos os seres.

sábado, 1 de setembro de 2007

Dia do Blog (mais um)

Blog Day 2007

Como disse no post logo acima, as ausências, atrasos e mudanças me levaram a publicar hoje, um dia depois, minhas indicações para o “Dia do Blog” (Blog Day). Espero que ainda esteja em tempo de contribuir com minha opinião sobre alguns blogs.

Creio que muita gente já sabe do que se trata o “Dia do Blog”, principalmente quem edita, publica e/ou lê blogs com freqüência. (Mesmo no meu caso, que estive um “bom tempo de férias” forçadas deste blog). Para quem não conhece, saiba mais neste site.

A idéia é que você indique alguns (cinco, mais especificamente) blogs que você leia com freqüência, ou que você descobriu por acaso e gostou, com o objetivo de expandir o conhecimento sobre blogs (famosos ou quase-anônimos) existentes. Neste caso, minhas indicações estão abaixo (não necessariamente em ordem de importância):

  1. Não só mais um na multidão - blog do Léo, que traz reflexões, idéias, alegrias e angústias de quem não é só mais um na multidão.
  2. QueroTerUmBlog.com! - blog de Alessandro Martins com dicas e opiniões importantes (ou melhor, essenciais) para aqueles que pretendem escrever um blog (e também para os que já escrevem, como é o meu caso :-).
  3. Clube da Mafalda e Depósito do Calvin - opção dois-em-um: blogs que publicam tirinhas das personagens mais interessantes, complexas e filosóficas (em minha opinião) dos quadrinhos: Mafalda, do argentino Quino + Calvin e Haroldo, do estadunidense Bill Waterson. Reflexão com diversão!
  4. Faça a sua parte - blog para divulgação de notícias sobre questões ambientais e, principalmente, dicas para cada um “fazer a sua parte” no cuidado para com a Mãe-Terra.
  5. Grupo de Estudo de Arte, Filosofia e Psicanálise - acabo de descobrir este blog de Maria Leite, psicanalista e doutora em Literatura.

Muitos outros poderiam entrar nesta lista, certamente. Mas em minha opinião, estes blogs representam bem o que tenho encontrado de interessante na blogosfera atualmente.

Que a Paz prevaleça. E que as boas notícias ecoem pelo Universo e encontrem ressonância em todos os seres.


quarta-feira, 2 de maio de 2007

Paulo Freire

"Sem a curiosidade que me move, que me inquieta, que me insere na busca, não aprendo nem ensino". (Paulo Freire)



Em 2 de maio de 1997, há dez anos atrás, falecia Paulo Freire.

Entretanto, suas obras e ensinamentos continuam vivos entre aqueles que buscam pôr em prática um autêntico trabalho de educação. A sociedade atual continua a precisar de novas práticas pedagógicas, da consolidação da democracia, de uma cultura de tolerância e solidariedade, do reconhecimento de igualdades. Em minha opinião, a pedagogia freireana é, principalmente, uma pedagogia do amor. "Não se pode falar de educação sem amor" (Paulo Freire).

Em memória a este grande Mestre e Educador, muitos eventos serão realizados para celebrar uma década de sua ausência (e sempre presença). A Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) realizará o V Seminário Paulo Freire no dia 9 de maio, a partir das 9 horas, em seu Centro de Convenções. No site do Instituto Paulo Freire, pode ser conferida a programação de muitos outros eventos cujos temas relembrarão o Educador e sua obra. A Editora da Unesp deve também relançar alguns livros do autor em comemoração a esta data.

Há uma década, “o menino que lia o mundo” repousou seus olhos e foi buscar outras paisagens para aprender e ensinar. Ao pensar em Paulo Freire, este menino, lembro-me de uma comovente passagem da história de Miguilim, do genial João Guimarães Rosa. Miguilim, ao colocar os óculos, descobre que um outro mundo existe. Tanta coisa bonita, diferente, nem era possível imaginar. Que deslumbramento é enxergar um mundo novo, ter diante dos olhos o encanto da novidade de um mundo em constante mudança. Afinal, como dizia o próprio Paulo Freire: “O mundo não é, o mundo está sendo”.

Que os ensinamentos de Paulo Freire continue a nos inspirar. Que a Paz prevaleça. E que as boas notícias ecoem pelo Universo e encontrem ressonância em todos os seres.

sexta-feira, 9 de março de 2007

Breve reflexão sobre o Dia Internacional das Mulheres

Embora com um dia de atraso, gostaria de deixar uma breve reflexão sobre a data que foi celebrada ontem.

Há controvérsias em relação ao Dia Internacional da Mulher. Para algumas pessoas, é uma data festiva, para se comemorar e presentear as mulheres com quem se convive. Para outras, a data é vista como momento para relembrar os movimentos políticos e as manifestações operárias em que as mulheres tomaram parte, reivindicando o reconhecimento da dignidade e igualdade social (embora reconhecidas - e devendo ser respeitadas - as diferenças biológicas). Há ainda aqueles que são indiferentes, e sequer se lembram de que este deveria ser um dia especial.

A minha opinião é que nenhuma das três atitudes acima, isoladas, são as mais completas. Explico-me: não acredito que deva ser celebrado apenas o aspecto festivo da data; também acho que não se deve reduzir a data a meras recordações de movimentos políticos e tragédias oriundas do não-reconhecimento da mulher; e, certamente, discordo totalmente de que esta data não deveria existir, ou que deveríamos ser indiferentes ao que ela representa.

Mas sim, acredito que o dia 08 de março sirva para nossa expansão de consciência e para nossas reflexões sobre as diferenças de gênero socialmente impostas, lembrando que a questão de gênero é apenas uma dentre outras tantas diferenças que convencionamos para subjugar e praticar o exercício de poder.

Há em mim uma esperança de que o aspecto feminino (que há em todas as mulheres, em todos os homens e também em todas as coisas, juntamente com seu oposto complementar masculino) possa nos trazer mais ternura, mais receptividade, mais solidariedade, mais compaixão e mais intuição para promover o equilíbrio em nossa sociedade tão saturada de valores masculinos (competitividade, individualismo, poder, razão).

Que o Feminino possa se manifestar e equilibrar nossas ações. Que a Paz prevaleça. E que as boas notícias ecoem pelo Universo e encontrem ressonância em todos os seres.

terça-feira, 30 de janeiro de 2007

Gandhi

Nesta mesma data (30 de janeiro), há 59 anos atrás (1948), morreu Mohandas Karamchand Gandhi. Este indiano dedicou sua vida em busca da verdade (satyagraha; do sânscrito: satya – verdade, agraha - busca), liberdade, igualdade, respeito e tolerância às diversidades (por sinal, foi assassinado por um hindu que justamente não aceitava sua tentativa de conciliar duas profissões de fé divergentes, como hinduísmo e islamismo). Através de seu carisma, liderou milhões de indianos para a conquista da independência da Índia, então sob domínio inglês. A oposição à metrópole britânica proposta por Gandhi baseava-se no princípio da não-violência (ahimsa). Conforme suas próprias palavras:



“O que quer que façam conosco, não iremos atacar ninguém nem matar ninguém; estou pedindo que vocês lutem, que lutem contra o ódio deles, não para provocá-lo. Nós não vamos desferir socos, mas tolerá-los, e através do nosso sofrimento faremos com que vejam suas próprias injustiças e isso irá ferí-los, como todas as lutas ferem, mas não podemos perder, não podemos... Eles poderão torturar meu corpo, quebrar meus ossos, até me matar, então terão meu corpo inerte, mas não a minha obediência” (Gandhi)



E assim, através de boicotes aos produtos ingleses, manifestações pacíficas, desobediência civil às leis injustas e perseverança por longos anos, o povo indiano obteve sua independência no ano de 1947.


Portanto, não é à toa que também nesta data é comemorado o Dia da Não-Violência. Gandhi legou-nos, através de atos e palavras, o testemunho de uma vida dedicada à cultura de paz, mostrando-nos que através da não-violência é possível vencer – fazer o bem em troca do mal. De fato, esta atitude perante à vida e aos conflitos soa bastante incomum em uma sociedade competitiva como esta que construímos e mantemos. Provavelmente foi este o motivo que levou Einstein a dizer o seguinte sobre Gandhi:

“Generations to come will scarce believe that sucha one as this walked the earth in flesh and blood.”
(Tradução livre: “As gerações por vir dificilmente acreditarão que um homem como este realmente existiu e caminhou sobre a Terra.”)


Antes de Gandhi, outras grandes almas (vêm do sânscrito “Mahatma”, nome atribuído a ele) também pregaram a cultura de paz e a não-violência. Jesus Cristo revoga a lei do “olho por olho, dente por dente”, condenando a vingança – não retribuir o mal com o mal. "Bem-aventurados os pacificadores porque serão chamados filhos de Deus", diz o Mestre de Nazaré em seu Sermão da Montanha.


Siddharta Gautama, o primeiro Buda, ensina-nos a importância de se evitar o mal e a praticar o bem: "Praticar o bem, abster-se do mal e purificar seus pensamentos, são os mandamentos de todo iluminado." E diz ainda que: "Jamais, em todo o mundo, o ódio acabou com o ódio; o que acaba com o ódio é o amor."


Os grandes Mestres sempre apontaram que “a paz é o caminho”. Desenvolver a cultura de paz implica na prática cotidiana de cada um, para que haja uma verdadeira conversão. Ou ainda, como diz Gandhi: "Faça da tua vida um reflexo da sociedade que desejas."


Que Gandhi e outras grandes almas nos inspirem. Que a Paz prevaleça. E que as boas notícias ecoem pelo Universo e encontrem ressonância em todos os seres.